Embora o Saudades do Rio tenha abarcado do tema já há um ano atrás consideramos que o tema dessa esquecida localidade na região de Ramos tem muito ainda para oferecer.

A Villa Gerson era uma realização do Coronel Joaquim Viera Ferreira que adquiriu nos anos 10 do século passado  os restos do antigo Engenho da Pedra, não só o que sobra hoje nos mapas da cidade, como outro pequeno naco de terra alinhado com algumas ruas já de Bonsucesso.

No litoral originário da região esse naco uma pequena península que se projetava além da antiga Av. Norte, hoje Av. Teixeira de Castro entre as Ruas Itambé e Marques de Oliveira, na época Rua 3 de Março. Toda essa pequena área extra da Vila Gerson ficou sepultada pela Av. Brasil e o complexo de acesso para  Ilha do Governador e depois parte do Parque União, essas ruas nunca chegaram a ser arruadas e seus PAs restam cancelados nas fichas da prefeitura.

Já a outra parte do pequeno bairro com o nome de Vila Gerson, filho do Coronel falecido precocemente e que além do bairro batizava a principal rua a Gerson  Ferreira, a única de fato arruada até a orla da antiga praia de Apicú, na época chamada de Praia Guanabara e hoje conhecida como de Ramos, que era juntamente com a Rua das Missões, hoje Rua Nossa Senhora das Graças os caminhos abertos diretamente para a orla no período de maior efervescência do loteamento nos anos 30 do século passado vindo estação ferroviária de Ramos

A extinta praça Dr. Miguel era o centro desse pequeno bairro, abrigava comércio, como esse armazém que ainda existe praticamente intacto.

Bem como a escola Dr. Nerval Ferreira, construída pelo Coronel nos anos 10, que era uma das maiores da Leopoldina, abrigando 800 alunos, a escola, muito ampliada e modificada, inclusive avançando sobre a área da praça chegou nos nossos dias

Dessas vias principais havia o serviço de uma linha de ônibus que transporta em seus ônibus lotados centenas de pessoas em horários a partir das 4:30 até a meia noite, ele fazia uma alça pela Villa Gerson, vindo da estação de trem de Ramos, descendo pela rua das Missões, Gerson Ferreira ia até o fim a área urbanizada, na extinta estrada do Apicú, entrava na Estrada do Eng. da Pedra e voltava a estação. Vemos o ônibus na esquina das duas primais estradas. Aliás o trajeto era muito parecido com a “ximbicas” já dos anos 50 e 70 que faziam o trajeto Estação-Praia de Ramos, como já mostramos num post ainda nos tempos do fotolog e sua correção anos depois.

O mapa de 1936 inclusive nos permite ver quais lotes já estavam edificados. A construção típica era o bungalow, que já saia de moda nos bairros oceânicos substituídos pelas construções no estilo Missões e Normando, mas que ainda tinham apelo nas fronteiras do Recôncavo de Inhaúma, mas haviam algumas chácaras construídas ainda nos anos 10. Poucos ainda sobrevivem a decadência do local e a mudança de uso dos terrenos a partir dos anos 40.

A região ainda abrigava remanescentes da época do engenho, como essa casa de arrabalde do séc. XIX no antigo Caminho do Norte, ocupada pela mesma família desde a década de 90 do séc. XIX, e possivelmente ainda mais antiga

Certamente por problemas de implantação da infra-estrutura urbana, como chegada da rede elétrica e de iluminação pública, telefônica, água encanada e pavimentação as primeiras ruas a serem arruadas e ocupadas foram as que se localizavam entre a Estrada do Engenho da Pedra e a extinta Estrada do Apicú, as outras como a Clotilde Ferreira, nunca foram corretamente arruadas e posteriormente desapareceram com o abandono do loteamento e seu principal algoz .

Vemos a Rua das Missões já asfaltada e a Gerson Ferreira, partindo da Praça Dr. Miguel  em obras de pavimentação com macadame alcatroado

Vemos nas fotos as tentativas de se facilitar o acesso dos automóveis a praia, como seguidos aterros e pavimentação de brita nas ruas Gerson Ferreira e Clotilde Ferreira bem na orla do bairro

O Coronel Vieira Ferreira, numa tentativa de dar impulso ao bairro trocou seu escritório da Av. Central para esse grande casarão da Rua Gerson Ferreira número 80, na esquina com a Rua Maria da Glória, onde dava expediente todas as manhãs, onde escrevia cartas para os jornais, brigava com seus colegas do Clube Militar, de onde era diretor da Assistência Social e tentava vender seu bairro, possivelmente os restos desse casarão senhorial ainda existam por debaixo desse galpão que mantém o exato alinhamento da velha construção

O promissor balneário o qual seu realizador muito incentivava como bailes, almoços, homenagens à autoridades, banhos a fantasia, bailes carnavalescos, a construção de um bar na praia com dancing, oferecimento de cadernetas de poupança as crianças residentes do bairro,  bem  como seguidas doações de terras ao município (escola Nerval de Gouveia), à Marinha (para um colônia de pesca e centro de estudos de piscicultura), para o Tijuca Tênis Club do qual era benemérito – morava na Tijuca, para a ABI, para os Centro de Cronistas Carnavalescos, a primeira colocada do Curso Normal de 1935, ao Sindicato dos Jornalistas para primeiro a construção de um retiro e já nos anos 40, na esquina com a algoz um grande terrenos para a construção do Hospital dos Jornalistas, a Caixa Econômica Federal. Quase todos estes terrenos eram localizados junto a Av. Guanabara, na orla da praia, a região menos desenvolvida do loteamento, pela demora da chegada do asfalto e da iluminação pública, curiosamente ao contrário do que ocorria em Copacabana.

Porém o final da década de 30 foi cruel com o loteamento e também com praticamente todo o litoral do recôncavo e suas atividades originárias a construção da Variante da Rio-Petrópolis, posteriormente chamada de Av. Brasil produziu com seus aterros agressivos e a segmentação do antigo tecido urbano, tal qual outra obra da Adm. Dodsworth – Av. Pres. Vargas-,  uma decadência acelerada da região como local de moradia e lazer e sua alteração para uma zona industrial, trazendo atividades altamente poluentes como refinaria, terminais petrolíferos etc..

A segmentação e o aterramento provocou o imediato esvaziamento de toda a região lindeira a baia, que trouxe a reboque poucos anos a abertura da via a favelização, nas antigas praias e zonas de mangue. Esse movimento fez a primeira vítima a pequena parte da Villa Gerson já em Bonsucesso  que desparece sem deixar nenhum vestígio, nenhum trecho de rua sobreviveu.

Já a outra parte, mas urbanizada e articulada com a cidade se manteve, mas a  grande avenida que engoliu a Estrada do Apicú e a Rua Clotilde Ferreira, bem como vários lotes em outras ruas, que acabaram causando seu desaparecimento, como a Raphael Ferreira, hoje um pequeno beco por de trás da Concessionária Mirian.

Ruas como a Coronel Alvares da Fonseca e Professor Alves Moreno foram engolfadas pelo abandono e favelização da área, no mapa dos anos 50 elas não aparecem mais. Desse trecho do bairro só sobram a Gerson Ferreira e a Avenida Guanabara, com o litoral bem afastado do original.

A Rua Ruth de Souza, mesmo do outro lado da Av. Brasil é o caso mais emblemático, engolida por um complexo de galpões, que curiosamente prestam serviços a prefeitura e com um remanescente de trecho fagocitado por uma pequena favelinha.

Vemos inclusive no muro do galpão na esquina com a Av. Brasil o resto da curva de alinhamento da Avenida com a desaparecida rua

No início dos anos 40 várias tentativas do Coronel Ferreira Vieira de vender seu bairro, inclusive uma certa submissão ao governo Vargas e seu Estado Novo, que curiosamente destruía o projeto da Copacabana de Leopoldina.  Pelo que percebemos os Coronel falece em 1943, e aí a Villa Gerson praticamente desaparece dos jornais da capital, aparecendo apenas em alguns anúncios de leilões judiciais de terrenos até o final da década, virando um desconhecido passado de grande parte dos Cariocas