Rua João Caetano – anos 50
Nossa foto de hoje mostra um local que não existe mais, destruído sem dó pelas reformas urbanas atabalhoadas que sumiram com praticamente toda a região da Cidade Nova.
Vemos a desaparecida Rua João Caetano, que começava na antiga Rua Senador Euzébio, cruzava a Rua Gal. Pedra até se encontrar com os muros da Central, dali fazia um angulo de 90 graus e ia acompanhando o muro da linha férra até morrer junto a Marquês de Sapucaí na antiga passagem de nível.
O nosso fotógrafo estava bem na esquina da Rua Gal. Pedra e mirava suas lentes para o cotovelo da rua, onde convenientemente havia um grande portão de acesso para dentro da linha férrea, a ocupação, congelada por força dos planos de construção do Bairro Avenida-Cidade ( http://www.rioquepassou.com.br/2008/04/17/avenida-cidade-projeto-fascista-para-a-praca-xi/ ) um delírio facistóide do Estado Novo, cuja a Av. Pres. Vargas é seu único ato concreto, fora a destruição de todo um traçado urbano; abrigava casas térreas, quase todas coloniais ecleticizadas no começo do séc. XX formando um homogêneo conjunto, como bem documentava meu pai em sua infrutífera tentativa de salvar toda a região do arrazamento que sofreu ( http://www.rioquepassou.com.br/2007/07/05/rua-luis-pinto-esq-com-gal-pedra/ ), apesar de ser uma região humilde contava com todos os serviços de infraestrtura, como pavimentação, rede de esgotos e águas pluviais, iluminação pública, redes de luz e telefone, toda essa estrtura foi jogada no lixo.
Descobrir por fotos ruas deste trecho da cidade é um difícil trabalho de arqueologia, pois nem as plantas de PA delas existem mais, os logradouros simplesmente sumiram, e temos de ter sorte delas aparecerem juntas no PA de alguma via que ainda exista.
Por fim depois de muito investigar descobri que sua embocadura, ou o que sobra dela com a desaparecida Rua Senador Euzébio ainda existe e pode ser vista nessa foto do google maps ( http://goo.gl/maps/7JEN ) a casa térra em ruínas, assinala ainda a esquina da Rua João Catetano, mesmo o muro colocado pelo metrÔ não conseque se juntar a quina curva de cantaria, muito comum nesse tipo de construção do séc. XIX, bem como por dentro da área cercada vemos mais portas que davam para a desaparecida rua.
Aliás esse pequeno trecho da Pres. Vargas é um museu vivo, através não só das ruinas desse pequeno conjunto remanescente, mas também de restos de mobiliário urbano como um poste da rede de bondes do que era a velha Cidade Nova, varrida do mapa, por obras que tiveram início em um movimento sectário do Estado Novo que queria erradicar do Rio a Pequena África, que apesar no nome abrigava além de ex-escravos e seus descendentes, judeus, árabes, imigrantes italianos e espanhos, além dos portugueses, num desagradável caldeirão étnico para as eugenistas mentes de importantes figuras do governo de Vargas.

Marcus Vinicius comentou,
Sempre tive curiosidade de saber por que esses sobrados ainda não foram demolidos.
André, o poste de bonde seria isso?
https://maps.google.com.br/maps?q=Rua+da+Am%C3%A9rica,+Rio+de+Janeiro&hl=pt-BR&ie=UTF8&ll=-22.908676,-43.20319&spn=0.000705,0.001321&sll=-14.239424,-53.186502&sspn=51.908459,93.076172&oq=Rua+da+Am&t=h&hnear=R.+da+Am%C3%A9rica+-+Rio+de+Janeiro&layer=c&cbll=-22.908643,-43.203086&panoid=9jy3rbeqquiXXxc2h3_FWg&cbp=12,316.2,,0,-2.1&z=20
Essas duas estruturas de ferro mais a frente são antigos postes?
https://maps.google.com.br/maps?q=Rua+da+Am%C3%A9rica,+Rio+de+Janeiro&hl=pt-BR&ie=UTF8&ll=-22.908905,-43.203915&spn=0.001401,0.002642&sll=-14.239424,-53.186502&sspn=51.908459,93.076172&oq=Rua+da+Am&t=h&hnear=R.+da+Am%C3%A9rica+-+Rio+de+Janeiro&layer=c&cbll=-22.908939,-43.204022&panoid=FuqCztkS5Iqw3TxQBkpn2Q&cbp=12,194.24,,0,15.36&z=19
[Responder]
Andre Decourt respondeu em junho 27th, 2012 às 8:37:
Exato Marcus, já os outros dosi postes não são de iluminação me parecem ser ventilações de galerias de esgoto e muito antigos
[Responder]
Marcus Vinicius respondeu em junho 27th, 2012 às 16:34:
Muito obrigado.
[Responder]
27 de junho de 2012 às 4:25
nalu comentou,
Bom dia!
Esses “delírios fascistóides” inspiram muitas barbaridades contra a nossa cidade até hoje. A descoberta de que restam alguns vestígios desse trecho anima o exercício do nosso “jus esperneandi”, antes que seja tarde.
[Responder]
27 de junho de 2012 às 10:02
Ricardo Galeno comentou,
O triste é ver o que sobrou aos pedaços!
A casa maior até uns tempos atrás tinham algumas letras na fachada que indicavam o nome de uma empresa, hoje só tem a letra R se não engano.
Ainda bem que quando caíram não machucaram ninguém!
[Responder]
27 de junho de 2012 às 11:55
Marco de Yparraguirre comentou,
Um crime cometido contra a cidade e seus humildes moradores.Uma parte da nossa história jogada no lixo.Em muitos bairros ditos modernos de hoje não há rede de esgostos.Foto realmente esclarecedora.
[Responder]
27 de junho de 2012 às 15:37
Raul Félix de Sousa comentou,
Linda foto esta, e, ao que saiba, totalmente inédita na rede. Gostaria muito de ver mais fotos da Cidade Nova.
É muito triste ver que nossos governantes foram capazes de cometer este crime contra a história da nossa cultura. Esta ‘pequena África’, que tenho a felicidade de ter conhecido em seus últimos dias, foi o cadinho de etnias em que se forjaram alguns dos traços mais característicos e originais da cultura brasileira, e em particular, da cultura musical. Foi em suas ruas que o choro, o samba e a marcha-rancho se cristalizaram em suas formas originais. Foi aí que as tradições da África passaram a fazer parte também da vida de quem não era descendente de escravos. A cada vez que passo ao longo da Avenida do Mangue (que agora carrega o nome do ditador que principiou esta destruição) me vem à memória aquele casario decadente, que ainda conservava os traços do esmero e da nobreza originais com que fora construído, entrecortado pelos tapumes que ocultavam dos passantes as ruas de baixo meretrício. As palmeiras imperiais que aparecem nas antigas fotos, e que já foram cartão-postal da cidade, estas eu não conheci. Mas conheci o suficiente para olhar com um ar apreensivo para aqueles que lamentam a destruição do palácio Monroe, e pensar: O Monroe? o que é o palácio Monroe?
[Responder]
27 de junho de 2012 às 22:48
Luiz D´ comentou,
Aprendendo muito, mais uma vez.
[Responder]
27 de junho de 2012 às 22:49
Gustavo Lemos comentou,
Belíssimo trabalho de pesquisa. Parabéns!!
[Responder]
28 de junho de 2012 às 0:18
amaury comentou,
srs.,
há aqui um paulistano que morou no Rio, lendo esses vossos posts.
abraços.
[Responder]
28 de junho de 2012 às 17:28
Derani comentou,
Sensacional !
Belo trabalho de arqueologia.
[Responder]
28 de junho de 2012 às 18:01
Augusto comentou,
Mais uma aula fantástica sobre uma região há muito maltratada da cidade.
[Responder]
28 de junho de 2012 às 20:37
Niuxa Drago comentou,
OI, André,
Dei uma olhada num mapa antigo e penso que talvez a casa de esquina que você nos mostrou junto ao muro do metrô estivesse na esquina da Luiz Pinto com a Senador Euzébio. No meu mapa, a João Caetano parece mais para a direita, como alinhada com a outra ponta do muro do metrô. Posso estar enganada. O que vc acha?
Realmente é incrível esta parte “fantasma” da Presidente Vargas, beeem em frente à Prefeitura. Sempre reparei nela com curiosodade, mas nunca achei que se pudesse auferir tanta coisa de tão poucos resquícios. Parabéns, você é um super urbanista-arqueólogo!
[Responder]
Andre Decourt respondeu em junho 29th, 2012 às 16:19:
Niuxa fiz esse exercício de localização da rua, usando como referência as pontes sobre o canal do Mangue e também com as ruas do outro lado do canal, para isso usei dois mapas, um dos anos 20 e outro dos anos 40 da região do Catumbi e Cidade Nova, comparando com o mapa de hoje.
[Responder]
29 de junho de 2012 às 1:00
mário lopes barreira comentou,
Amigo ANDRÉ DECOURT, aprecio muito o seu trabalho mas gostaria de fazer algumas correções, com a sua permissão, sobre a foto: l- A rua em questão não era a João Caetano e sim a Dr. Ezequiel (nesta rua morava o saburiquinha ou melhor, o Djalma Dias que se tornou um grande jogador de futebol , chegando a seleção brasileira, pai do djalminha outro grande jogador de passado mais recente). 2- A ffoto deve ter sido tirada da esquina com a Av. Presidente Vargas e não da rua General Pedra. 3- A rua General Pedra era, nesse trecho, paralela ao muro de acesso a via férrea. O portão que vemos ficava na rua General Pedra e por ali entravamos para jogar pelada no terreno onde existia um depósito da ferrovia (que foi destruido por um incêndio). 4- A rua João Caetano começava na rua Marquês de Sapucaí onde o acesso aos veículos era vedado , somente passavam pedestres . A rua era fechada ao trânsito face a uma ponte sobre o leito da ferrovia, que serviria, mais tarde, ao elevado que hoje existe, chamada de ponte de pau. O acesso à rua da América era feita por uma escada improvisada de madeira, daí o nome que recebeu. 5- A rua João Caetano que no começo só tinha lado impar , seguia paralela ao muro da ferrovia, dobrava a esquerda e cruzava com a rua General Pedra (a partir do cruzamento ganhava o lado par) e seguia em direção a avenida Presidente Vargas, onde na realidade terminava. Prezado André, morei na rua João Caetano, 129 dos dois anos aos vinte e quatro (ou seja de 1938 até 1962) e minha esposa nasceu na rua em questão, mais precisamente no número 56. Hoje, com 76 anos, guardo na memória como se fosse um arquivo vivo, os locais, detalhe por detalhe , onde passei minha infância e juventude, nunca esquecerei, com muita saudade , daqueles momentos. Quanto ao desaparecimento de toda aquela área, ela deu passagem ao progresso inevitável (metrô). Uma última observação : o morro no fim da foto é o morro de Pinto. Mário Lopes Barreira, ao seu dispor.
[Responder]
Andre Decourt respondeu em outubro 4th, 2012 às 16:37:
Mário, graças ao seu depoimento, teremos mais novidades sobre essa região, aguarde e muito obrigado !
[Responder]
Jorge R. Tavares respondeu em junho 16th, 2013 às 17:07:
Prezado, Fiquei muito contente em relembrar um pouquinho da minha infância, Nasci na Rua João Caetano n. 203, no ano de 1969. Pelo menos é o que consta na minha certidão. rsrsrs.. Meu pai me contava que eu adorava correr pela Av. Pres. Vargas e quando da parada militar (7 de setembro) a Rua ficava lotada.. Tenho algumas fotos de infância da vila onde morávamos. Obrigado..
[Responder]
4 de outubro de 2012 às 15:48
mário lopes barreira comentou,
Amigo André. Complementando a informação anterior, um detalhe sobre a rua General Pedra: ela começava na rua de Santana, cruzava as ruas Comandante Maurity (ainda existe um pedaço dela entre a Faculdade Estácio de Sá e o Parque Noronha Santos), Marquês de Pombal, Marquês de Sapucay, Luiz Pinto, Dr. Ezequiel JOÃO CAETANO e terminava na Pedro Rodrigues onde existia uma escola pública pertencente a Central do Brasil (assim chamava-se a ferrovia). A rua General Pedra tinha casas dos dois lados até o cruzamento com a rua JOÃO CAETANO, daí em diante perdia o lado par , substituido pelo muro da ferrovia. Os habitantes de toda essa vasta área eram, alem de brasileiros, italianos, portugueses, espanhois e até africanos. Amigo André, não sou um pesquisador como você, porém sou um memorizador já que vivi muito tempo na área. Um abraço Mario Lopes Barreira
[Responder]
4 de outubro de 2012 às 18:14
mário lopes barreira comentou,
Amigo André. Complementando a informação anterior, um detalhe sobre a rua General Pedra: ela começava na rua de Santana, cruzava as ruas Comandante Maurity (ainda existe um pedaço dela entre a Faculdade Estácio de Sá e o Parque Noronha Santos), Marquês de Pombal, Marquês de Sapucay, Luiz Pinto, Dr. Ezequiel JOÃO CAETANO e terminava na Pedro Rodrigues onde existia uma escola pública pertencente a Central do Brasil (assim chamava-se a ferrovia). A rua General Pedra tinha casas dos dois lados até o cruzamento com a rua JOÃO CAETANO, daí em diante perdia o lado par , substituido pelo muro da ferrovia. Os habitantes de toda essa vasta área eram, alem de brasileiros, italianos, portugueses, espanhois e até africanos. Amigo André, não sou um pesquisador como você, porém sou um memorizador já que vivi muito tempo na área. Um abraço Mario Lopes Barreira. A ordem das ruas é aleatória.
[Responder]
4 de outubro de 2012 às 18:15
JBAN comentou,
Muito bom o depoimento do Mário. É a prova que o trabalho sério do André está rendendo frutos.
[Responder]
27 de outubro de 2012 às 22:01