andredecourt's foto van 18-5-06

Largo da Carioca, início do séc. XX

Nesta foto de Malta vemos o largo da Carioca durante o governo Passos, as transformações que esse logradouro sofreu na administração do grande prefeito estavam apenas começando, identificadas apenas por uma pequena demolição perto da rua da Assembléia.

Mas é o velho tecido urbano, que é a estrela do post de hoje, com a ajuda do grande historiador Luiz Edmundo iremos identificar, todos os estabelecimentos comerciais que nesta foto aparecem, começando da esquerda superior da foto, onde era a antiga esquina do largo com a rua Uruguaiana.

O estabelecimento que vemos no fundo, alinhado com a carroça, na borda esquerda da foto era a “Alfaiataria do Povo” na época dessa foto ostentando uma enorme faixa de “liquidação forçada” esse estabelecimento depois das reformas ocupou um moderno prédio bem na esquina da Uruguaiana com o Largo, ela pode ter até ficado mais chique, mas Luiz Edmundo é cruel: “encontra-se um armarinho, desses que ainda existem em certos subúrbios da cidade, ou pela Rua Larga, com enormes pilhas de fazendas à porta, mal dando passagem à freguesia e um dilúvio de ceroulas, cobertores, calças, camisas de meia e fitas de metros, rendas, ou bordados, numa confusão caótica, a desabar do teto, dos aparelhos de iluminação à gás das prateleiras…..” .

Logo após no mesmo sobrado há o que parece ser uma loja de loterias, com engraxates, apontadores do bicho, venda de jornais, apostas do Derby…onde os espertalhões afiam as garras para pegar um otário.

Atravessando a Gonçalves Dias, diz Luiz Edmundo que havia duas casas de secos e molhados, que nessa foto parecem ser os imóveis que vão ao chão, vamos às palavras irônicas do mestre: “autêntico armazém de secos e molhados, aliás com mais molhados que secos, a ostentar reles balcões de madeira e soalhos enegrecidos pela falta de asseio, cuspinhados pelos bêbados que aí fazem ponto.”

O próximo imóvel é ocupado por outra loja de fazendas, segundo o historiador na mesma desordem da primeira, e na sua porta faz ponto um personagem que devia ser folclórico no seu tempo, um velho negro vendedor de jornais e cordeu chamado Bandeira.

Logo depois o prédio mais alto, e segundo Luiz Edmundo o único aceitável de todo largo abriga o Restaurante e Charutaria Pariz, logo após temos o maior expoente do famoso estilo arquitetônico “compoteira” da cidade ao meu ver, que era o prédio da Confeitaria Rocha & Meneres, novamente coloco as palavras do historiador ” Mais seis compoteiras de louça no telhado e seis estatuetas que o Fortunato do café, em frente, diz que representam as quatro estações do ano: a primavera, o Verão, o Outono, o Inverno, a Industria e a Estrada de Ferro…..”

Depois da confeitaria vem a Casa de Ferragens Leitão, a Charutaria Portugal e fechando a foto o Café Victória, sendo seu sobrado já na esquina da rua de São José.

Após a rua de São José o largo ainda teria mais dois imóveis neste lado, uma estação dos Bombeiros e a Leiteria Itatiaia, logo depois começava a rua Treze de Maio junto ao velho chafariz.

Essa foto junto com as descrições de Luiz Edmundo, mostra como o largo era pequeno, e como, com o passar dos anos ele foi sendo deslocado em direção ao litoral, primeiramente com o realinhamento promovido por Passos de que demoliu praticamente todos os seus imóveis, só poupando o velho chafariz e posteriormente a seguida demolição de todas as construções da rua Treze de maio junto as encostas do morro de Santo Antônio.

Comments (21)

rodperez 18-5-06 10:55 …

muito interessante!

Vinicius 18-5-06 11:00 …

Andre, ainda existe alguma construção no estilo “compoteira” na cidade?

Derani 18-5-06 11:01 …

Não sei se exatamente estas casas do lado direito da foto, mas cheguei a pegar este mesmo quarteirão de pé, na década de 60.
Eram edifícios já do período Passos, tipo loja e sobrado de dois ou tres andares e lembro bem que havia uma loja de discos e aparelhos eletrônicos (vitrolas, microfones, etc.) e ainda em um sobrado, uma escola de dança de salão.
Foi tudo abaixo e ficou só a praça entre o Ed Av Central e o De Paoli..

edubt 18-5-06 11:21 …

Vou fazer um post duplo que vc vai gostar…

;-) )))

Rafael Netto 18-5-06 11:25 …

A rua que segue pra “dentro” da foto seria a Gonçalves Dias?
Cadê a Rua da Assembléia?
Pelo que eu entendi, a Uruguaiana não aparece na foto. Para a esquerda estaria o Hospital da Ordem Terceira?

http://fotolog.terra.com.br/rafael_netto

AG 18-5-06 11:58 …

Andresíssimo, que beleza de post !
Viajei aqui por duas horas.
Muito bom os detalhes desse Rio antigo, mais idealizado do que real. O mestre Luiz Edmundo não tinha mesmo papas na língua; botava pra jambrar.
Não deixo de ler e reler o livro Rio de Janeiro do meu Tempo. Imperdível para quem ama esta cidade.

luiz_d 18-5-06 12:55 …

Hoje foi uma aula e tanto.

Evelyn 18-5-06 12:57 …

nao vou perguntar nadinha…(((

mmontemayor 18-5-06 12:59 …

Hermosas Fotos!!!
Tendré que aprender portugues para postearte…

Beautiful pictures!!!
I must learn to speak Portuguese to post you…

patricio 18-5-06 13:04 …

Essa “Alfaiataria do Povo”, na foto ainda estava em seu edificio original, o que me faz supor que o registro deverá ser de 1900-02. Em 1905 já surge o novo prédio (muito bonito em estilo eclético) deste estabelecimento que era divido em duas secções: do lado da R. da Assembleia era a Torre de Belém e para o lado da Uruguaiana continuou com a mesma denominação (A. do Povo) – o dono era o mesmo. Existia ainda uma filial desta casa no Largo da Lapa. O Café Pariz foi léndário, local de reunião de intelectuais da época. Na pag. 50 do livro “Rio de Janeiro, 1900-1930″ do G. Ermakoff tem uma ampliação fantástica do local 2-3 anos após este flagrante. As Estatuetas de porcelana portuguesa que se encontram na balaustrada do terraço da Pastelaria Rocha & Meneres, representam efectivamente as estações do ano. Recentemente, em uma casa de leilões no Leblon tinha um exemplar destes. Como o expert André disse, Luiz Edmundo faz uma descrição perfeita destas casas comerciais (todos eles de propriedade de “patricios”).
Abraço

andredecourt 18-5-06 13:28 …

Rafael, é isso mesmo a rua que segue para dentro é a Gonçalves Dias, a Rua da Assemblia está ali, mas na resolução do fotolog fica difícil visualiza-la, mas as casas da esquina dela com o largo estão sendo demolidas, a Uruguaiana está fotografada do mesmo jeito da S. José, só aparecendo a casa da esquina, a rua propriamente dita está fora da moldura da foto.

Derani, acho que o desenho básico do quarteirão é o mesmo mas todos os imóveis foram demolidos e substituídos por outros

FlavioM 18-5-06 13:29 …

Foto excelente! Luiz Edmundo excelente!

Olha ali o chalé duplo encarapitado por cima das compoteiras. E, pelo jeito, com terraço e tudo.

http://www.flaviorio.globolog.com.br

Rafael Netto 18-5-06 13:58 …

Imagino que as demolições ao fundo fossem para o alargamento da Rua da Assembléia. Essa rua é uma das vias de Passos, é larga e arborizada, ao contrário das vielas antigas do Centro como a Gonçalves Dias e a Ouvidor.

Não é à toa que o cara era chamado de “bota abaixo”. Mas como eu já falei uma vez, o que Passos fez equivaleria hoje a rasgar pela cidade mega-avenidas ladeadas de prédios pós-modernos.

http://fotolog.terra.com.br/rafael_netto

AG 18-5-06 14:48 …

E onde ficava o Café Papagaio ?
Na Rua da Carioca, logo depois das Casas Bahia, no sentido Tiradentes, existe uma mistura de sebo, café, cachaçaria que agora não me lembro o nome. Pois na parede, atrás do balcão, reina uma reprodução muito grande de uma pintura (que dizem estar na Academia) com uns vinte e tanto intelecuais da época tomando café e fumando nesse tal Café Papagaio.
Tem lá Bastos Tigre, Coelho Neto, João do Rio etc etc.
Alguém aí saberia responder onde era esse Café Papagaio ?

Fco Patricio 18-5-06 15:38 …

Apenas como curiosidade: por no minimo 3 gerações pessoas da minha familia “fizeram” o Brasil em épocas distintas (sem nunca se cruzarem): meu bisavô, João Pinto; meu avô Manoel Pinto e eu. O Manoel, meu avô, teve uma carvoaria na Rua Bom Pastor nos anos 30, justamente intitulada “CARVOARIA PAPAGAIO”, em virtude de uma ave dessa especíe que ficava na entrada do estabelecimento e que, juntamente com o dono, falava um montão de palavrões. Acredito que o mesmo deveria de suceder neste “Café Papagaio”.

andredecourt 18-5-06 18:05 …

Sim, sim o papagaio do café, diz a lenda era a alegria dos boêmios ao dizer impropérios a todos !!!

patricio 18-5-06 18:08 …

Pobres das incautas damas que passavam em frente ao famígerado “Louro”!

biasworld 18-5-06 18:59 …

Bárbaro!!! Peço licença para adicioná-lo!

Solange Passos 18-5-06 19:53 …

Adoro ver os gradis das sacadas.Cada um diferente do outro, mas todos muito bem trabalhados,lindos.
Dá vontade de colecionar.

Evelyn 19-5-06 7:58 …

AG
O cafe q e mistura de sebo e cafeteria fica na Rua da Carioca 10, e se chama ‘Cafe do Bom cachaça da Boa” e tb ‘Antiqualhos!”, e bem interessante o local!
O quadro data de 1908 e de Marques Junior tenho um cartaozinho com a reproduçao
Tb queria saber aonde se localizam aqueles cafes todos, o Papagaio, o Java acho q este ultimo seria no Lgo de sao Francisco com Ouvidor, alguem confirma?

www.flickr.com/photos/raoni 19-5-06 10:45 …

” a vontade que tenho e simplesmente de entrar foto a dentro e explorar toda a região olhando tudo que tem dentro das lojas..imagina…”