Nessa foto de Malta, tirada logo após a conclusão da duplicação do Túnel Velho, iniciada anos antes pelo prefeito Alaor Prata e terminada pelo seu sucessor Prado Júnior, vemos o inegável toque de bom gosto do último prefeito carioca antes da queda da república velha.

O túnel alargado de cinco metros e meio para pouco mais de treze, permitia uma inegável melhora ao tráfego em direção a Copacabana no antigo túnel ferroviário, criado no final do séc XIX para ser exclusivo dos bondes da Jardin Botânico.

Além do mero alargamento, o túnel ganhava melhorias importantes, como o revestimento da abóboda em concreto armado, a criação de calçadas, permitindo o transito de pedestres em segurânça e a substituição do precário viaduto da Real Grandeza por um novo, mais sólido e largo. Além disso a abertura da Rua Dr. Sampaio Correia, criando uma ligação direta com a rua Real Grandeza, evitando assim a tortuosa subida em curva pela pequena Rua Lacerda de Almeida.

A foto nos mostra o bom gosto de todos os equipamentos usados no túnel, do estilo neo-colonaial tão em voga à época, passando por detalhes como a parede de pedra guarnecendo o passeio, certamente evitando rabiscos nas paredes do túnel, como as belas arandelas iluminando a parte inferior do viaduto. Temos também as pinhas de louça nos guarda corpos da escada que dá acesso a  Rua Real Grandeza e outros elementos que eram presentes, mas que a foto não mostra, como as compoteiras no topo dos dois frontões e o chafariz comemorativo na saída do túnel do lado de Copacabana.

Com a duplicação dos anos 60/70 muito da tipologia original foi perdida. Como o piso foi elevado, tanto na pista de rolamento, como mais ainda nas calçadas, que viraram passarelas quase dois metros acima das pistas; as laterais revestidas de pedras desapareceram praticamente, só surgindo com menos de metro de altura já fora da galeria. Nos muros de arrimo, tanto do lado de Copacabana como de Botafogo reforços estruturais em forma de uma grade de concreto foram instalados brutalizando os muros e escondendo o trabalho de textura. Muitas das pinhas foram estragadas e o viaduto da Real Grandeza trocado por um novo, de concreto, horrível que esconde a boca do túnel.

Mas o pior estava por vir a partir dos anos 8o, quando pinhas e compoteiras originais foram furtadas, e apenas reinstaladas  em 1992 quando da última grande reforma do túnel, já réplicas de concreto, sem valor artístico e cultural. Mas o túnel é hoje ameaçado pela galopante favelização da cidade, abastecida pelo populismo e falta de fiscalização.

 Do lado de Copacabana um grande condomínio  com uma estrutura de mais de 6 andares ( hoje com 9 andares)  foi instalado, para um daqueles empresários do ramo de imóveis de favela ganhar um troco em uma área não edificante. Além do peso dessa estrutura num local que a vida toda só teve vegetação, o esgoto escorre constantemente pelas muretas e escadas no fim da Rua Siqueira Campos. Talvez dia desses o muro de 1923, reforçado em 1968 e sem manutenção desde então desabe, levando o patrimônio ilegal de algum oportunista e vidas daqueles que pagam até R$800,00 por um quarto em sala pendurado em cima de um túnel que deveria ser um marco histórico.

Post atualizado com foto em alta resolução.