Mas uma vez o fantástico acervo da Life nos reserva uma fantástica imagem do Rio, na realidade temos duas imagens, tiradas de um ângulo muito parecido com aproximadamente 35 anos de diferença entre elas.

A primeira em P&B foi produzida no  final dos anos 30, início dos 40 e a segunda já a cores em 1973. A foto colorida tirada com um equipamento fotográfico que tinha negativos retangulares, possivelmente 35mm, foi recortada para nesse post se aproximar da foto do final dos anos 30, que utilizava uma máquina que tirava fotos no formato muito próximo ao quadrado.

Os fotógrafos estavam no Morro da Urca e miravam suas objetivas ao Bairro e Enseada de Botafogo, num ponto muito semelhante, não sei se o fotógrafo de 1973 sabia da existência da foto de seu colega feita décadas atrás.

 

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Na foto dos anos 30 vemos claramente que o último trecho da antiga Praia da Saudade era aterrada para instalações do Iate Clube, é interessante reparar no formato da antiga Pasteur urbanizada por Passos, densamente arborizada que contornava o litoral que ia desaparecendo com os aterros.

O Morro  do Pasmado, ainda livre da favela que surgiria uns 15 anos depois de feita a imagem mostrava uma densa vegetação em sua metade , a posteriormente ocupada pela favela, e na outra, bem pelada, pontos mais claros que não consigo identificar, mas não são construções.

A enseada na foz do Rio Berquó ainda fazia seu pequeno recôncavo, a Park Way do Túnel do Pasmado ainda era apenas um projeto da PDF. Vemos inclusive a pequena faixa de areia que existia no local. A piscina do Guanabara também se destaca, se projetando do litoral original.

Botafogo era um bairro com pouquíssimos prédios altos, na foto toda contamos apenas uns 6 que passam dos 5 pavimentos, se destacando na massa de casas e construções baixas. A Favela Dona Marta, já existia, mas era mínima, apenas uma pequena clareira na mata fechada.

 

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Já em 1973 a realidade era bem diferente, a cidade se verticalizou enormemente. O Morro do Pasmado está envolto por prédios, e não vemos mais sinais da favela removida aproximadamente 10 anos antes. Mas a divisão do morro ainda existe, há uma espécie de cerca viva dividindo-o em dois, tal como na antiga imagem.

O litoral da Praia da Saudade não sofreu mais alterações, mas se encontrava densamente ocupado pelas instalações do clube. Mas chama a atenção o aterro da região posterior, junto ao Pasmado. As obras foram tão violentas que nem o conjunto arbóreo sobreviveu nos dando uma pista de qual era o traçado da urbanização de Passos. A piscina do Guanabara sumiu na nova área. Vemos apenas a do Botafogo, construída já dentro d’água.

Junto as pistas da Beira Mar, além dos aterros da Park Way, feitos no início dos anos 40, temos a praia artificial, construída no Governo Lacerda, afastando ainda mais o bairro das águas da Guanabara.

A favela D. Marta cresceu muito e galga as encostas, ainda não verticalizada, constituída apenas por barrados de madeira e zinco, de apenas um pavimento, mas se mostra uma mancha na paisagem que iria se intensificar mais ainda após o socialismo moreno.

Nessa época a cicatiz da pedreira da Rua Assunção já tinha praticamente desaparecido, algo que na foto antiga é bem visível.

É interessante constatar a presença da palmeira Imperial nas duas imagens, como um marco da paisagem.